20 de jul de 2016

Esquerda

Um espírito guerreiro, cujo modo de ser é de quem conquistou a liberdade de viver para o amanhã, enquanto sente a necessidade de transmitir sua impressão original da vida (ao se esforçar para que os outros sintam algo que tenha alguma semelhança com a sua experiência singular), consegue manter firme a sua posição na existência, que é a resistência à manipulação que conserva o “reino da estupidez”. Generoso, esse modo de ser tem certeza que faz parte de um comunismo superior, ou seja, do grande e sagrado comunismo cosmológico: sem estoques, sem arquivo erudito, ele alegremente compartilha sua experiência com o mundo... E qual é esse mundo? Inevitavelmente é o “reino da estupidez”, porque é nesse mundo que um sopro de vida pode tocar e mover alguns indivíduos que não suportam a sua própria estupidez e o seu desperdício de tempo. Certamente, isso é uma árdua tarefa, pois é notório que os que estão hipnotizados pelos mais diversos prazeres do “reino da estupidez” não possuem o tempo necessário para receber algo que parece ser incompreensível, sejam eles banqueiros, pastores, políticos, intelectuais ou militantes de esquerda. Entretanto, alguns destes indivíduos podem ser utilizados, com a devida prudência, como suportes para práticas políticas de uma esquerda superior. Chamamos de esquerda superior tudo o que concerne à nossa capacidade de resistirmos diante do “mundo dos estúpidos”, para conquistarmos, afinal, o direito de vivermos como espírito guerreiro, que é aquele que “põe a faca entre os dentes e vai à luta, com a absoluta confiança de que seguirá presente para sempre”. Sentir alguma coisa do que foi transmitido por esse modo de ser genuíno nos encoraja a participar ativamente de um comunismo superior, onde não existe Estado e classes sociais, pois esse comunismo é dominador desde sempre, esteve sempre aí, diante de nós – e, sem dúvida, também em nós... É por isso que o “mundo dos estúpidos” deve ser atingido impiedosamente com simplicidade e sagacidade, ao invés de ser reforçado por narrativas liberais da direita ou reformado por uma esquerda que não consegue se livrar de narrativas tutelares, de uma concepção de igualdade ainda aderente à velha noção de indivíduo. Mas a esquerda superior, ao disseminar arte, filosofia e ciência, permite que alguns seres estupidificados possam ter a consciência de que todos nós somos, de fato, iguais – trata-se da igualdade na continuidade, que é tornada conhecida por aqueles que se reinventam, que efetuam a despedida, que sabem que ninguém está separado do Sempre... Uma outra civilização humana pode ter como base esse comunismo superior.

10 de jun de 2016

Estupidez

É possível percebermos, com clareza, que é mais eficaz manipular os indivíduos que não têm tempo livre para se dedicar aos seus próprios pensamentos do que os que fazem um uso produtivo do tempo, já que é uma característica da nossa época o bombardeio de informações, sobretudo pela internet, como ferramenta indispensável para o controle do tempo das massas, embotando a sensibilidade estética e reprimindo a experiência do pensamento profundo, com concentração. A sociedade de excesso torna as nossas mentes imundas ao oferecer a sensação de que devemos nos manter informados dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Embora a internet seja um excelente meio para buscarmos conhecimento (grande parte da produção intelectual da humanidade se encontra nela), ela é utilizada, de modo crescente, como meio para troca de mensagens e, particularmente nas redes sociais, para representarmos uma imagem que acreditamos ser aquilo que os outros dizem que somos. A transformação da world wide web de um meio para buscarmos conhecimento para um meio de proliferação das conversas e do narcisismo não deve ser ignorada, visto que isso tem efeitos no nosso cotidiano e no modo como a sociedade é organizada. Contudo, o uso entorpecedor das inovações tecnológicas não é, evidentemente, um acontecimento recente, pois a televisão, antes mesmo da internet, já cumpria a função da disseminação da estupidez... Mas temos a impressão que a humanidade encontrou por intermédio da internet a maior oportunidade da sua história para se distrair de si mesma. Se, por um lado, o tempo dedicado à leitura de textos impressos não cessa de diminuir, por outro lado, o tempo dedicado à leitura de textos na tela de um computador ou de um smartphone apenas aumenta. Mas, de fato, podemos chamar isso de “leitura”? Nicholas Carr, em um importante estudo sobre os efeitos da internet no nosso cérebro (1), enfatiza que a leitura apressada na web é algo completamente diferente da experiência solitária que a leitura de um texto impresso pode nos proporcionar, uma vez que a “leitura” de um texto numa tela não deixa de estimular a dispersão da nossa atenção (incluindo e-books com hiperlinks), ao contrário do texto impresso que estimula o foco da atenção, permitindo, segundo Carr, “a capacidade de saber, em profundidade, um assunto por nós mesmos, e construir, dentro das nossas próprias mentes, o conjunto rico e idiossincrático de conexões que dão origem a uma inteligência singular”. Devido à leitura apressada, os indivíduos se tornam mais ansiosos, não sentem o enriquecimento da mente com a experiência do tempo, não conseguem desenvolver a potência crítica e criadora do pensamento – vivemos numa época em que, finalmente, a estupidez é estimulada em uma velocidade jamais vista... Mas será que a disseminação da estupidez humana seria um simples efeito do desenvolvimento tecnológico? Será que a facilidade de acesso às conversas online, e à avalanche de informações que nos chegam, não teriam nenhuma relação com interesses políticos e econômicos? Ora, a sociedade de excesso, ao roubar o nosso tempo próprio, tenta impedir a manifestação de pensamentos subversivos que colocam em questão interesses inconfessáveis – são interesses intrínsecos aos mais elevados graus da estupidez humana, porque somente os mais estúpidos entre os estúpidos utilizam o seu tempo para lucrar cada vez mais e, por causa disso, necessitam desesperadamente vigiar, controlar e enganar as massas. Entretanto, como não conseguiriam fazer isso sozinhos, precisam de um “mundo de estúpidos” que trabalham (tendo consciência ou não) a favor dos seus interesses miseráveis. Seguramente, a formação desse “mundo de estúpidos” não ocorre somente por ameaças ou censuras, mas principalmente de modo penetrante, clandestino, sedutor: se as massas não sabem o que fazer com o seu tempo livre, é mais fácil controlá-las pelo excesso de estímulos que servem para preencher esse vazio. Mesmo que elas se incomodem com a sensação de desperdiçarem o seu tempo com futilidades, ainda assim entendem que isso é melhor para elas, visto que não querem estar consigo mesmas, com seus pensamentos questionadores – elas têm medo de ideias ameaçadoras que podem vir à tona e desfazer o seu “mundo encantado, cheio de fantasia”... E se, inesperadamente, elas são atingidas por palavras ou imagens que provocam sensações vertiginosas, que tiram tudo do lugar, preferem fugir “como o diabo da cruz”... É fato incontestável que as informações que servem para alimentarmos o nosso pensamento crítico e, por conseguinte, para resistirmos à manipulação clandestina dos afetos, se encontram de modo abundante na internet. Mas quem é que tem paciência para fazer pesquisas? Quem é que tem tempo para buscar o conhecimento? E, além disso, quem é que tem a disposição necessária para poder fruir uma obra de arte? Certamente é mais cômodo preenchermos o nosso tempo livre com informações recebidas enquanto estamos sentados no sofá da sala, diante da televisão, como faz, por exemplo, a maioria dos brasileiros. Por efeito, se apenas sete famílias que dominam os meios de comunicação no Brasil decidem o que milhões de pessoas devem e como ser informadas, o acesso às informações que são discordantes aos interesses dessas famílias é reservado a uma parcela muito menor da população, pois para acessá-las é preciso ter tempo livre e paciência. Por isso é possível concluir que o acesso à riqueza da produção intelectual humana que está disponível na internet (e também nas bibliotecas, sebos e livrarias, pois não podemos desprezar a força que o livro impresso possui), é privilégio de pouquíssimas pessoas – são estas que, devido ao uso prolífico que fazem do seu tempo, conseguem expor problemas urgentes da nossa época, nos alertando sobre o perigoso caminho que a nossa civilização está se dirigindo e, ao mesmo tempo, nos indicando saídas entre as múltiplas pedras da estupidez. São problemas e saídas que as percepções do “reino da estupidez” não podem dispor, uma vez que ele mesmo, o “reino da estupidez”, é produto de uma detestável relação com o tempo.

1. “A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros”. Uma entrevista com Nicholas Carr está disponível em https://goo.gl/k1e1T5
Há um ótimo comentário sobre esse estudo de Nicholas Carr em http://goo.gl/GWIV8g

1 de jun de 2016

Manipulação

A manipulação das massas neste início de século envolve uma engenharia clandestina de grande sofisticação. Conforme as denúncias de Edward Snowden, agências de inteligência introduzem materiais falsos na internet, disseminam mentiras sobre inimigos políticos, inclusive servem-se das ciências humanas para manipular a “inteligência humana online”. Por meio de narrativas favoráveis aos seus fins, os inimigos são abatidos sem a necessidade de um tiro sequer, apenas pelo descrédito que passam a ter em razão da propagação de notícias falaciosas. Postagens de informação negativa, de “vitimização falsa” (quando alguém finge ser vítima de um inimigo político) e de “operação de bandeira falsa” (material postado na internet atribuído falsamente a terceiros), são apenas algumas táticas de manipulação que, de fato, exercem grande influência na multiplicidade de afetos do mundo online. Trata-se da arte da manipulação clandestina dos afetos. Também de modo clandestino, redes de ONGs na América Latina propagam as narrativas da direita liberal ao pregarem a liberdade individual (como se o corpo e a mente fossem a nossa primeira propriedade privada), a predominância do indivíduo sobre o Estado, a meritocracia e, como contraste, rejeitam os programas sociais de governos chamados de “populistas”, como o de um Hugo Chaves na Venezuela ou de um Evo Morales na Bolívia. Essas narrativas são sedutoras porque enfatizam a liberdade do indivíduo de escolher o futuro que quiser, sem depender das muletas de um Estado tutelar (daí o ataque aos governos “populistas”). Recentemente no Brasil esses discursos foram para as ruas, com o apoio da grande mídia conservadora (principalmente a partir de Junho de 2013). Intelectuais que são declaradamente favoráveis ao discurso liberal fomentaram essas ideias para o grande público na internet, nos noticiários da televisão, nas colunas de jornais e revistas, cujo bombardeio diário de opiniões multiplicou os afetos de medo e de ódio, realizando, de algum modo, aquilo que as agências de inteligência planejaram. Com a criação estratégica da Operação Lava Jato, foi reforçada a impressão de que o país finalmente passou a ter uma oportunidade de realizar uma “faxina” ao caçar os corruptos (a Lava Jato se tornou a “lenha da fogueira” que incendiou a nação). Resumidamente, estes foram alguns dos elementos principais para o golpe jurídico-midiático no Brasil em 2016, caracterizado por uma espécie nova de golpe de Estado, de longo prazo, que funciona de modo clandestino, sobretudo na internet, sem a necessidade de disparar um tiro sequer para destituir um governo que é contrário aos interesses estadunidenses de neocolonização na América Latina. Afinal, como destituir o governo de um país com 200 milhões de habitantes, cujo território é o quinto maior do mundo, sem correr o risco de comprometer gravemente a imagem estadunidense no mundo da comunicação global? Para isso é necessário aliar-se aos interesses perversos da burguesia do país (especialmente aos dos proprietários dos meios de comunicação), de alguns juízes, dos partidos de oposição, das igrejas evangélicas e, como fator indispensável nesse processo, executar impecavelmente, de modo agressivo e contínuo, a arte da manipulação clandestina na internet que faz o “caldeirão dos afetos” ferver na temperatura que se espera... Mas podemos também agir clandestinamente de modo completamente diferente dos pregadores do liberalismo. O indivíduo não é princípio de nada, não é proprietário do seu corpo, não é dono de coisa alguma – a sua existência é, ao mesmo tempo, um presente da vida e um meio de passagem para as potências dela. É evidente que o indivíduo não existe separado de um coletivo de forças que, necessariamente, o desindividualiza, em menor ou maior grau. Por não se colocarem nesse processo de “desindividualização”, os incluídos por um Estado tutelar continuarão insatisfeitos com ele enquanto não perceberem que as muletas devem, um dia, ser jogadas para bem longe (eles não realizam a transmutação das políticas de inclusão social). Por causa disso, é importante a existência de movimentos horizontais de autogestão, como coletivo de anônimos, que disseminam clandestinamente arte, ciência e filosofia em todos os lugares, combatendo o medo que assola os que estão entupidos por narrativas liberais e, também, por narrativas tutelares, ou seja, por tudo aquilo que reforça a noção do indivíduo como zona de segurança... Se a clandestinidade manipuladora existe por causa da covardia dos que estão capturados pela vaidade pessoal, a clandestinidade desmanipuladora, por seu lado, pode ser proliferada pela coragem dos que possuem uma simplicidade impessoal.

29 de mai de 2016

Neocolonização

Um estudo encomendado pela Nasa, divulgado em 2014, destaca a possibilidade da nossa civilização entrar em colapso devido à exploração insustentável de recursos naturais e a desigualdade na distribuição das riquezas (1). Alterações climáticas extremas (inverno intenso na América do Norte, calor intenso na América do Sul e Austrália), superpopulação (segundo a ONU, o crescimento da população está estimado em 80 milhões de pessoas por ano, podendo chegar a 9,1 bilhões em 2050) e a escassez de água e energia, são fatores determinantes para o colapso. Além disso, a desigualdade crescente entre ricos e pobres contribui para acelerar esse processo (segundo um relatório da Oxfam, divulgado também em 2014, as 85 famílias mais ricas do mundo possuem um patrimônio igual ao da metade da população mundial). Como a população mundial tende a crescer, a desigualdade social também irá aumentar e, em razão disso, as tensões sociais serão inevitáveis. O cenário será mais ou menos este: o alto consumo de recursos naturais por parte das elites vai excluir a maioria da população ao acesso a esses bens, restando aos pobres apenas algumas migalhas que serão necessárias para a sua sobrevivência; por efeito, os que produzem a riqueza consumida pelas elites simplesmente irão colocar em risco a acumulação capitalista por meio de revoltas, greves, protestos, levando, então, toda a civilização à sua grande crise. Portanto, parece ser óbvio que uma melhor distribuição de renda e uma grande redução do consumo de recursos naturais seria a melhor solução para impedir o colapso do atual modelo socioeconômico. Entretanto, sabemos que essa “mudança de atitude” não irá surgir enquanto a humanidade continuar a ser escrava do seu consumo excessivo de bens em busca de prazeres. A esperada “mudança de atitude” é completamente contrária ao capitalismo, pois sua sobrevivência depende da exploração de recursos naturais de modo desenfreado – por meio disso, novos mercados são criados e sua morte é, temporariamente, afastada. Na América do Sul existem recursos naturais que são absolutamente indispensáveis para a sobrevivência do capitalismo, como, por exemplo, as reservas de água: o Aquífero Alter do Chão, localizado no Brasil (sob os estados do Pará, Amapá e Amazonas) é considerado o maior aquífero do mundo em volume de água disponível; o Aquífero Guarani é outra grande reserva, localizada no Uruguai, Argentina, Paraguai e Brasil; muito próximo da América do Sul, a Antártida é a maior reserva de água doce congelada no mundo (e que também contém importantes minerais estratégicos). Ademais, a venezuelana PDVSA é atualmente a petrolífera com maiores reservas de petróleo do mundo e, no Brasil, existe uma grande área de reservas petrolíferas (o pré-sal). Ora, diante dessa abundância de recursos naturais na região, torna-se evidente que a neocolonização estadunidense que está em curso tem como objetivo obter o controle de todos eles. Na Argentina esse processo de neocolonização ocorre por meio de um presidente democraticamente eleito, que tem transformado o Estado numa espécie de “Estado corporativo” que representa bancos e multinacionais, com CEO's como ministros. Cortes drásticos nos orçamentos da educação e das políticas sociais, gerando aumento do desemprego e da pobreza, são reflexos evidentes da neocolonização na Argentina. Somado a isso tudo, recentemente o presidente argentino selou um acordo com o governo estadunidense para a instalação de duas bases militares no país: uma em Ushuaia, que é muito próxima à Antártida, e outra na Tríplice Fronteira (Brasil-Argentina-Paraguai), onde está localizado o coração do Aquífero Guarani – este fato demonstra que a soberania econômica e política da Argentina está ruindo (2). O Paraguai, em 2012, sofreu um golpe de Estado e já possui base militar estadunidense em seu território (3). No Brasil de 2016, a neocolonização conseguiu destituir, por meio de um novo tipo de golpe de Estado, um governo que, nos últimos anos, promoveu inclusão social a uma grande parte da população. Portanto, muitos acontecimentos recentes indicam que a América do Sul corre o sério risco de ser devastada por grandes corporações que irão saquear o máximo que podem os seus recursos naturais e, exatamente por isso, os regimes totalitários tendem a se proliferar no continente. Consequentemente, a distância entre ricos e pobres irá aumentar, o que certamente irá multiplicar os conflitos sociais... Além do estudo encomendado pela Nasa, existem outros estudos que até consideram a hipótese do colapso da civilização ocorrer em apenas quinze ou vinte anos. De qualquer modo, muita coisa indica que, seja cedo ou um pouco mais tarde, a humanidade, caso queira sobreviver, terá que se reinventar por meio de um novo direcionamento dos conflitos sociais que irão se multiplicar: um novo modo de pensar a política, um novo modo de pensar a existência que ganhamos, uma outra relação com o mundo em que vivemos... Afinal de contas, o que estamos presenciando na América do Sul em 2016 é apenas mais um sinal do desespero do capitalismo para prolongar a sua existência, mesmo que seja numa “Unidade de Terapia Intensiva”.

1. O estudo “Human and nature dynamics (HANDY): Modeling inequality and use of resources in the collapse or sustainability of societies”, está disponível em http://goo.gl/2rq6VY
Há um texto de José de Souza Castro, “O colapso da civilização”, com comentários sobre esse estudo: https://goo.gl/xbZLpL

2. Texto de José Carlos de Assis, “Macri abre a Argentina para duas bases dos Estados Unidos”: https://goo.gl/Xq33FA 
Entrevista com Ricardo Alberto Arrúa, “Tríplice Fronteira: gigante cobiçado”: http://goo.gl/j2Yxfs

3. Reportagem da EBC, “Instalação militar norte-americana no Paraguai gera polêmica”: http://goo.gl/PFGGJH

5 de abr de 2016

Insatisfação

Se o Estado Democrático de Direito pode ser considerado insatisfatório é porque antes dele estão os afetos, ou seja, as “regras do jogo” não vêm antes dos afetos, pois são eles que as fazem – e são eles que também, sem dúvida, alteram as regras. Direitos são criados, mas direitos também são revogados, pois tudo depende do conflito de forças do campo social (basta lembrarmos que o próprio Estado Democrático de Direito surgiu por meio do domínio de forças burguesas). Podemos dizer que, em um determinado campo social (tomamos o Brasil atual como exemplo), existem os que querem lucros cada vez mais exorbitantes, como os empresários graúdos e os banqueiros (em nível mundial, o resultado assustador disso pode ser observado segundo um estudo recente: hoje em dia, a riqueza acumulada por 1% da população mundial equivale à riqueza de 99% do restante da população mundial). Há também os que anseiam em obter componentes altamente luxuosos, de sentirem-se como very important person: é evidente que estes têm medo de não mais possuir os direitos aos privilégios que lhes autorizam a se imaginarem superiores diante dos que não tem acesso ao alto luxo... Podemos também afirmar que existem os que anseiam por pequenos luxos que lhes dão o privilégio de sentirem-se superiores aos outros em razão da ascensão social (emprego com maior salário numa multinacional, apartamento muito mais confortável, viagens turísticas): estes sentem que também possuem o direito de serem consumistas, de ingerir novelas e noticiários numa televisão moderna, de circularem orgulhosamente com roupas de grife e automóveis caros, de exibirem seus corpos de acordo com o “padrão de beleza” atual. Há, enfim, os que querem condições dignas para morar, estudar, trabalhar, deslocar-se pela cidade e, dentre estes, muitos sonham com os pequenos luxos... Destacamos apenas algumas forças sociais que exigem do Estado Democrático de Direito o auxílio necessário para que as “regras do jogo” lhes favoreçam (poderíamos acrescentar os políticos corruptos, os pastores que enriquecem com o sofrimento alheio, porém, de certo modo, estas forças se relacionam com algumas acima). Mas como o Estado serve, de modo dominante, aos interesses dos banqueiros e empresários graúdos, os conflitos sociais, dos mais diversos tipos, são absolutamente inevitáveis. Se no fascismo quem pensa diferente é torturado, expulso, exterminado, na democracia quem pensa diferente é, muitas vezes, incluído, tornado domesticado, dócil, inofensivo – a demagogia democrática que pretente incluir para excluir a vida que é singular e fragmentária torna evidente, ao menos para nós, a sua natureza totalitária, mas com diferença de grau com relação ao fascismo, sem dúvida, pois este não tem como esconder o seu anseio unificador, ao contrário da democracia...  Ora, pelo fato do campo social ser tecido por uma multiplicidade de forças ou de tendências afetivas que estão sempre em mutação, o Estado Democrático de Direito, conforme convém às forças que o dominam, exclui, elimina (muitas vezes fisicamente, por via da violência policial) os indivíduos que são um entrave ao ideal de “plena satisfação” das forças sociais dominantes, como os pobres, travestis, negros, índios – estes últimos são, por exemplo, exterminados com a complacência do Estado brasileiro, ou então, são “excluídos pela inclusão”, como ocorre atualmente com a tribo Pirahã, que passou a ter, democraticamente, o acesso à televisão e à alfabetização (outro exemplo atual de massacre do povo indígena é a construção da Usina de Belo Monte). Portanto, o cenário é de insatisfação geral, pois, ao que parece, ninguém consegue obter, de modo completo, aquilo que se espera do Estado – insatisfação dos banqueiros, dos famous people, dos pobres, dos índios, dos negros... Mas porque não usarmos a insatisfação com o Estado para, finalmente, revermos nossos valores? Será que não é possível a multiplicação de ações políticas que vão na contramão da lógica do mercado capitalista? Para falar claramente, sem rodeios: muito mais do que apenas revermos valores, podemos dar um passo adiante para criarmos valores, o que significa uma nova relação com a política, com a economia e, sobretudo, com a existência que ganhamos. A insatisfação é o combustível para a exigência de uma maior repressão do Estado com o fim de garantir certos direitos do homem privatizado, mas ela também pode ser um combustível para resistirmos à sua violência inerente. A insatisfação com a ignorância humana, por exemplo, pode nos levar à necessidade de uma educação para o pensamento (algo que é muito diferente da insatisfação pela redução de certos privilégios consumistas), ou então, a insatisfação com a educação que está sob a tutela de um Estado que a trata como negócio lucrativo pode provocar ações políticas dos estudantes (as recentes ocupações nas escolas brasileiras pelos estudantes secundaristas como signo de democracia ativa). De algum modo é importante destacar que as lutas sociais que ocorrem em um Estado democrático (apesar de todas as suas aparentes contradições), podem se servir da preservação de direitos para seguirem adiante, para que surjam, quiçá, novos valores. É em razão disso que já dissemos em outro lugar: “criar e não ser incluído”, desde que se compreenda que a inclusão social que ocorreu nos últimos anos no Brasil pode ser, estrategicamente, utilizada como uma espécie de trampolim para que surjam novos modos de existência que são contrários aos fins do Estado e da lógica do mercado que o domina... Enfim, se fosse possível obtermos a satisfação, certamente haveria um bloqueio geral, viveríamos num paraíso insuportável. A satisfação é apenas um ideal de quem não age. Ora, se os afetos são anteriores às “regras do jogo”, tudo se decide aqui: os afetos de vontade excessiva, tristeza, ódio e ressentimento, alimentam o anseio totalitário (incluindo o ideal democrático); por outro lado, os afetos de desejo de sermos atraídos nos levam aos encontros com os micromundos, onde celebramos a fragmentação. Por isso, dispensamos o “salvador da pátria”, porque o importante é percebermos as tendências afetivas do campo social que estão diante de nós para experimentarmos a ressonância. Entretanto, as condições para isso podem fazer tremer as pernas de muita gente que está habituada a exigir que algum salvador resolva os seus problemas, que alguém possa fornecer a “poção mágica” para as suas perturbações. Contrariamente a essa postura vitimizada, é preciso se tornar um espírito guerreiro, que não luta de qualquer jeito, mas com simplicidade e sagacidade – como arte da guerra.

20 de mar de 2016

Agovernismo

O esfacelamento de instituições democráticas, em certas circunstâncias, não é contraditório ao capitalismo, pois quanto mais a democracia deixa de ser levada a sério (algo que é inevitável), mais ela passa a ter um sentido totalitário de grau muito mais elevado (a democracia é “salva” com  o restabelecimento da ordem a todo custo). Uma coisa é exercer a crítica das instituições democráticas que, por estarem a serviço da ordem dominante, deixam, de fato, de servirem às necessidades mais urgentes da população. Outra coisa é provocar a sua degradação acelerada que, de acordo com as exigências do capital (a “vontade de petróleo”, por exemplo), torna-se extremamente interessante (a aliança com a extrema-direita, em determinados momentos, não deixa de ser peça importante para o capitalismo). Para nós, é inegável a importância do avanço de políticas de inclusão social, de combate à fome, tal como ocorreu no Brasil nos últimos anos, o que lhe permitiu sair do Mapa Mundial da Fome em 2014. Entretanto, essas políticas tratam-se, sobretudo, de uma inclusão para o consumismo, sem ir além do primeiro passo, isto é, sem romper com a vontade de ter prazeres como sentido da existência. Para que essa ruptura se efetue, é necessário um segundo passo que é determinante, marcado por uma transmutação das políticas de inclusão por meio de uma política de educação libertadora (com muita arte, filosofia, ciência), promovida por movimentos sociais que se servem dos benefícios da inclusão social para, estrategicamente, estimular o pensamento crítico e criador que permite o surgimento de modos de existência que vão na contramão da homogeneização do consumismo (em síntese, este é o foco do que chamamos de democracia ativa). É em razão disso que, em um cenário onde existe o crescimento da extrema-direita, o apoio a um governo que promoveu condições de existência mais favoráveis a uma parte considerável da população não pode ser interpretado a partir de uma visão binária dos fatos, do tipo pró ou contra. O tecido social é complexo demais e, por isso, devemos multiplicar a análise dos fatos e distinguir as forças sociais que estão em relação, tendo como critério políticas que favorecem a autonomia, a autogestão e, no final das contas, o despertar das singularidades criadoras. A partir deste critério (e o que ele pode), entendemos que quando o apoio a um governo que promove a inclusão social é feito de modo dogmático, isso não deixa de ser reacionário, pois não se rompe com a existência consumista – pelo contrário, ela continua a ser estimulada para os incluídos. Para nós, este apoio é do tipo governismo. Todavia, quando o apoio é do tipo agovernismo, abre-se, ao menos, condições mais concretas para operarmos a ruptura com o consumismo – trata-se, portanto, de uma estratégia para que não sejam destruídos direitos da vida que foram arduamente conquistados. Por outro lado, quando não se apoia um governo assim e se deseja que surja outro do jeito que for, mesmo que seja por meio do esfacelamento das instituições democráticas, é evidente que também não há ruptura com a vontade excessiva de ter prazeres – o segundo passo também não é favorecido, ao contrário, retira-se o primeiro passo e a distância que separa os incluídos dos excluídos aumenta consideravelmente. A ideia de que “pior do que está não fica”, efeito do próprio circo democrático, torna-se mais um combustível para o “vale tudo pelo poder” que é promovido por aqueles que se servem das aparentes contradições da democracia representativa (a corrupção, o agronegócio, as privatizações, a destruição ambiental, a violência nas metrópoles), para fisgar os insatisfeitos de todo tipo... Embora estas distinções sejam, até certo ponto, muito básicas, pensamos que sejam suficientes para começarmos a superar o modo binário de interpretar os fatos sociais (pois o binarismo é ferramenta de poder, reproduz o ódio a quem não pensa e vive do mesmo modo). Portanto, não se trata de escolher simplesmente “o menor dos males” ou, então, “quanto mais repressão, melhor, porque assim o povo acorda”, pois embora haja diversos graus de violência estatal, ainda assim as criações podem surgir em ambientes mais favoráveis aos movimentos de autonomia que, evidentemente, sempre irão incomodar o Estado, seja a forma que lhe for dominante (democrático, totalitário, socialista). O Estado, por ser de essência parasitária, deve ser sempre incomodado com criações, e cada vez mais, porque o que está em jogo é o mundo em que vivemos, é o mundo em que as próximas gerações irão viver, pois a humanidade não terá direito a um futuro se continuar a se distrair de si mesma por meio do consumo excessivo de bens em busca de prazeres.

1 de mar de 2016

Ressonância

Qualquer um de nós pode encontrar coisas e seres vivos que, embora sejam temporariamente estáveis e finitos (num certo sentido), nos permitem a experiência da mudança universal. O fato é que algo existente já é um mundo, não importa a forma que tenha – e a nossa vontade de explorar é, para falar profundamente, o desejo de sentirmos a ressonância entre micromundos heterogêneos, o que faz nascer uma aliança temporária que nos torna mais fortes e confiantes na vida. Entretanto, é preciso ter coragem para sentir-se em casa desse outro modo, despersonalizado... O queremos enfatizar é que existe algo em nós que jamais se torna imundo, pois até as pessoas cujos atos nos envergonham – como as que amam o poder ou que apenas cumprem ordens – são, essencialmente, puras enquanto micromundos, mesmo que ignorem essa realidade. Essa ignorância ocorre porque não podemos sentir a ressonância de qualquer jeito, como se ela pudesse surgir pelo simples fato de encontrarmos alguém ou alguma coisa do modo que esperamos – esta expectativa, que é inerente à consciência pragmática, é sempre frustrante. É preciso, ao contrário, ser capaz de contemplar o ritmo que irresistivelmente nos atrai. Sem dúvida, os modos de existência limitados à consciência pragmática podem ter a experiência da ressonância, mesmo com a demasiada vontade de ter prazeres, mesmo sem cultivarem a contemplação de ritmos, mesmo com o esmagamento do desejo de serem atraídos – e, quando a sentem, é comum recorrerem à consciência pragmática para se tranquilizarem com uma explicação qualquer, desde que seja sustentada por uma suposta intencionalidade naquilo que lhes aconteceu (como se fosse, por exemplo, o sinal de um “chamado divino”). Disso decorre o conflito do “aperto no coração”, pois terão que rever valores, crenças e hábitos para se abrirem às novas experiências vertiginosas. A vertigem desloca a formação cultural de alguém, o seu saber enciclopédico, os seus títulos, mas também pode ser acompanhada do sentimento de não se saber muito bem o que fazer com ela – esta lacuna é a oportunidade que um líder de seita se serve para agregar mais um seguidor... Por outro lado, há quem, ao ser tomado pela vertigem, diz palavras muito profundas e lúcidas, que incomodam a sociedade. Entretanto, ao ser engolido pela banalidade ou, então, pela patologização da vida, sente-se até envergonhado por tornar dizíveis pensamentos tão originais que, justamente por isso, são incompreensíveis para muitos. Mas a aliança que surge com novas ressonâncias mantém afastado este perigo de duvidarmos da nossa própria pureza – e também da doce loucura do nosso pensamento.

31 de jan de 2016

Morte

Se existe uma ideia que mais atormenta a humanidade é a da morte, ou seja, é a certeza que obtemos pelo raciocínio de que, um dia, nosso organismo deixará de existir. Por causa disso, muitos acreditam que ela seria a passagem para a tão esperada imortalidade da alma. Há também os que acreditam que o mundo seria muito melhor se ela não existisse, se fosse finalmente “vencida” pela ciência. Porém, se ela realmente não existisse, simplesmente não haveria o amanhã... É como singularidades criadoras que não desperdiçarmos esta existência que ganhamos e, por isso, vivemos em função do amanhã, sem temermos a morte e, também, sem acreditarmos na imortalidade da alma. Sua ideia se torna até um estímulo para a urgência da nossa tarefa de obrar, para vivermos de modo que parece ser impossível para os que apenas percebem o hoje – então, a ideia da morte, neste seu sentido afirmativo, nos liberta dos clichês do hoje. É inevitável que, quanto mais se é escravo do hoje, mais a morte é amaldiçoada, pois sua imagem vem acompanhada da perda de bens diversos, de pessoas queridas e da história pessoal – não há dúvida de que a morte é impiedosa com quem ainda imagina que é proprietário daquilo que, de direito, nunca lhe pertenceu. Portanto, a morte não se opõe à vida, porque para a evolução da vida é absolutamente necessário que tudo que existe no universo desabe um dia, para que, finalmente, surja o novo – e para que o novo também, um dia, deixe de existir... Por isso é importante combater a tendência servil de glorificar o hoje e desprezar o amanhã, para que seja possível, enfim, a liberdade de viver para o amanhã. 

22 de jan de 2016

Simplicidade

Se a vaidade é um mecanismo de poder que nos limita ao conhecimento do hoje, nos separando da evolução no sentido da vida, por outro lado surgem, como imagem de contraste, os que jogaram para longe a vaidade pessoal e se tornaram aquilo que são – uma existência simples. Trata-se dos que possuem uma simplicidade impessoal, fruto de um conhecimento de que o Sempre está nos sujeitos e objetos, de modo que não existe ninguém no mundo que seja proprietário de alguma coisa ou até de si mesmo. Consequentemente, eles estão mais aptos para não se distraírem de si, seja pela admiração, seja pela inveja dos que precisam do hoje. Frequentam lugares que são, no fundo, simples; conversam com pessoas que também são, sem dúvida, simples (mesmo que elas ignorem que são); assim como também se alimentam, se vestem e se divertem com simplicidade. Porém, a simplicidade que falamos é distinta de um simplismo que rejeita o desenvolvimento tecnológico a partir de um ideal de purificação da alma, de uma glorificação da pobreza ou, então, da marginalidade. As inovações tecnológicas, quando não são utilizadas de modo supérfluo, podem favorecer ainda mais a simplicidade (o que pode parecer contraditório para muitos). Contudo, nas mãos do sujeito vaidoso, elas adquirem facilmente um sentido que é nocivo para todo mundo, pois para manter a todo custo o poder que ele depende, não há outra saída a não ser vigiar, controlar, enganar e assassinar – afinal, não há motivo algum para deixarmos de afirmar que é a existência covarde que precisa exterminar os que não se submetem... Através da simplicidade impessoal não há necessidade alguma para se ajoelhar e abaixar a cabeça diante dos “poderosos” e das “celebridades” - estes é que, ao contrário, deveriam reverenciar a simplicidade que se apresenta aos seus olhos, caso pudessem, evidentemente, se livrarem de seduções como honra e riqueza que, necessariamente, um dia perecerão. Mas o conhecimento daquilo que não perece, que é o que chamamos de Sempre, nos faz dispensar as quinquilharias fabricadas para colocarmos sobre nós mesmos, à espera dos aplausos que nos fazem acreditar que não mudamos a cada instante que passa. 

16 de out de 2015

Sempre

Hoje, hoje, hoje, o exagero do hoje nos sufoca. A linguagem corrente não cessa de nos falar do hoje, até os mais inteligentes nos incitam ao hoje. Fácil é falarmos sobre o hoje, que não exige grande esforço e paciência. Difícil é pensarmos no Sempre... Ignorar a presença do Sempre é negar o amanhã – o amanhã da humanidade. Mas o grande artista e o grande filósofo nos ensinam a pensarmos e sentirmos o Sempre – eles nos alertam sobre o exagero do hoje que nos torna doentes e covardes. Filosofia e arte se nutrem do Sempre, toda criação surge do Sempre, é a sabedoria do Sempre que devemos cultivar para não entregarmos a nossa existência aos que estão afundados no hoje. Passamos, então, a falar para o amanhã, ou seja, para os que têm ouvidos para o Sempre, sejam os que existem hoje ou que ainda existirão. Através do exercício impiedoso da crítica abrimos as portas do amanhã para alguns dos que apenas conhecem o hoje – e isso é revolucionário. O olhar focado no hoje nos faz errar o alvo: ora disparamos contra nós mesmos, ora utilizamos canhões para abater pássaros. Mas compreender e criticar o hoje a partir da experiência do Sempre nos faz acertarmos o alvo com a mais singela arma, porque sabemos que o hoje nunca esteve separado do Sempre. Mas os seres tristes, que não querem viver sem o reconhecimento pelos serviços prestados aos interesses do hoje, tentam banir a força revolucionária do criador ao se esforçarem para separá-lo da experiência do Sempre. Mas isso é inútil, porque ninguém, de direito, está separado do Sempre. A diferença fundamental é apenas entre quem ainda não quer perceber o Sempre, pois tem medo dele, e de quem o abraça com todas as suas forças para seguir o seu movimento de destruição-criação. É evidente que não assumimos riscos quando estamos atolados no hoje, ao menos enquanto acreditamos que o hoje vai nos “proteger” do Sempre. Mas quando somos tocados pelo Sempre podemos desejar acompanhá-lo – e para isso serão necessários alguns riscos, erros, acertos, novamente erros e acertos, porque simplesmente não queremos deixar de viver em função dele.