Realizar uma obra não é algo que nasce espontaneamente da consciência, tampouco obedece algum projeto finalista. Dedicar uma parte do dia, ou uma parte da semana, para se afetar por diversos tipos de sons e imagens, leituras de textos, inclusive observações de miudezas, fazem parte da grande tarefa de obrar. Por isso é fundamental saber o que se escuta, o que se lê, por onde se caminha, pois quando as manifestações artísticas servem para o entorpecimento, certamente não atendem à sublime tarefa de obrar. Não podemos nos sentir obrigados a conhecer os grandes filmes ou as grandes obras literárias de todos os tempos como condição para engendrar as nossas próprias obras. O excesso de filmes, músicas ou livros pode, ao contrário, obstruir essa tarefa. E ao dizermos isso não queremos, de modo algum, negar que a erudição possa estar a serviço da tarefa de obrar, mas queremos apenas observar a importância da distinção, que muitas vezes não é nítida, entre a distração de si pela erudição e o seu uso produtivo. Um rígido, frio e estéril profissionalismo acadêmico, por exemplo, está muito distante da irresponsabilidade inerente ao amadorismo que expulsa certas obrigações entediantes. E o amadorismo, aqui, não indica indolência, mas uma entrega àquilo que se faz por amor, através de uma indispensável mistura de autodisciplina, rigor, agressividade, estética, versatilidade, além da paciência necessária para organizar as idéias que surgem inesperadas e que, muitas delas, nos escapam sem a ínfima possibilidade de retornarem do mesmo modo que surgiram em nossa consciência. Por isso, exige-se um cuidado peculiar com a organização dos signos: os erros que surgem nos indicam, sempre afetivamente, que tal organização não é a melhor para tentar exprimir as nossas idéias. Então, apaga-se parte do que feito ou joga-se tudo fora mesmo, sem se apegar a nada, e coloca-se novamente no árduo e paciente processo de permitir que as idéias que nascem em nós sejam organizadas por meio dos signos, como trabalho indispensável para inventar um ritmo que permita que, ele mesmo, o autor, sinta a confiança necessária para expor a sua obra ao mundo. Afinal de contas, não sentimos nenhuma vergonha por expressar nossas idéias quando nos conhecemos por meio da introspecção... E, com isso, nos alegramos por sermos generosos... Algo feito, materializado, nos dá ainda mais confiança na vida, na sua absoluta potência de obrar também através de nós.
04/02/2012
20/11/2011
Opinião
Quando grupos de jovens ocupam uma rua, uma praça ou até a reitoria de uma universidade, costumam ser considerados, por muitos comentadores dos meios de comunicação, como “vagabundos”, “selvagens”, “violentos” e “criminosos”. É fácil associar a imagem de uma parede pichada ou de uma mesa quebrada com uma ação violenta e criminosa – logo, boa parte da sociedade espera que os que agiram assim sofram algum tipo de punição, pois, afinal, a ordem deve ser preservada. Mas quando se comprova que um político é corrupto, que se apropriou do dinheiro público, por exemplo, não é considerado “selvagem” ou “violento” pelos comentadores da mídia. Quando um político é considerado criminoso, trata-se de um contexto muito diferente de quem picha parede ou quebra mesa. Como a mesa destruída ou a parede pichada são associados à “selvageria”, isto é, à incivilidade, é incomum considerar incivil um político corrupto, já que ele não quebra objetos e não suja o espaço público – então, nesse sentido, não pode ser considerado uma ameaça à ordem social... Em um caso, a ordem social é explicitamente ameaçada; no outro caso, ela nem é considerada como ameaçada. Desse modo, é mais fácil que o ódio e a indignação para com um grupo de jovens considerados “delinquentes” sejam muito maiores do que para com um político corrupto, mesmo quando a sociedade tem uma vaga noção de que o dano causado por um grupo de jovens é muitíssimo menor do que o dano causado pelo político corrupto... Certamente, se quisermos, apenas por convenção das palavras, chamar de “violenta” e “criminosa” as ocupações de ruas, praças, reitorias ou edifícios abandonados, isso não se compara, de modo algum, com a violência cotidiana exercida por aqueles que se servem do Estado para garantir os seus interesses parasitários e perversos (interesses que são, de fato, de acumulação de dinheiro e de manutenção de poder). É para estes indivíduos que alguns comentadores da mídia trabalham, utilizando-se de clichês como “a culpa é de tal partido político”, “a polícia está a serviço do povo”, “é um bando de desocupados”, entre tantos outros clichês, servindo para alimentar discussões improdutivas na sociedade, movendo desejos vaidosos onde cada um quer impor a “sua” verdade ou, para dizer mais claramente, de impor uma opinião que foi, antes, construída pela mídia. Discussões, confusões, opiniões, tudo isso serve para manter escondida uma outra violência, que é muito, muito mais grave: aquela que é exercida por juízes, políticos, empresários e tantos outros que participam desse grande circo de horrores, servindo-se, inclusive, da mídia para não se tornarem alvos do ódio das massas. O ódio das massas é perfeitamente dirigido não somente aos jovens considerados “delinquentes”, mas muito mais frequentemente aos mendigos, aos pobres drogados, aos assassinos, já que estes são considerados – conforme já dissemos – como uma ameaça explícita à ordem social. Por isso é importante questionarmos o que chamam de “ordem”... “Ordem” como manutenção de interesses mesquinhos?... E se pensarmos que a manutenção dos interesses mesquinhos, que são mantidos através de uma violência constante, são determinantes para a reprodução de assassinos, pobres drogados, mendigos, invasões de edifícios abandonados, ruas, praças?... O poder exerce o seu domínio pela linguagem, e a mídia oficial, nesse sentido, não cessa de reproduzir significados que mantém as massas reduzidas à opinião, inibindo, desse modo, o exercício da crítica como força do livre pensamento. A comunicação de massa, cada vez mais crescente, forma indivíduos que agem, escrevem e falam o que é legitimado e ditado pela linguagem do poder. E na época onde a mídia continua a aumentar o seu domínio, é inevitável que os indivíduos massificados recorram aos mais antigos clichês para tentar compreender manifestações de desejo que são absolutamente inéditas e singulares. A vulgarização crescente é sintoma de uma penetração cada vez maior dos mass media no cotidiano dos indivíduos.
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