Escondido

Viver anonimamente, escondido, não nos parece ser uma fuga covarde. Pelo contrário, além de ser um altivo cuidado de si, é uma grande prova de força, de uma conquista da vida corajosa. A vida sábia é conquistada quando encontramos, através das mais variadas coisas do mundo, as companhias que pertencem à nossa natureza. Talvez uma das tarefas mais árduas da nossa existência é sabermos nos livrar das amarras, isto é, fazer morrer o que pode morrer, pois o que se tornou dispensável não pode mais ter sentido para ser carregado conosco. Tais relações venenosas com as coisas do mundo nos impedem de dispor o nosso corpo e a nossa mente para tudo o que é novo. Assim, levamos uma vida que assemelha-se à massa – e, pior, nos preocupamos cada vez mais em viver assim. Fazemos o que os outros querem e, como é inevitável, colhemos os piores frutos em razão dessa ignorância. Perdemos tempo e forças com tarefas inúteis – ser recompensado, admirado, invejado, famoso ou, simplesmente, ser um sujeito “normal”, demanda doses absurdas de compromissos enfadonhos e de companhias insuportáveis, tudo para preservar uma imagem que destoa completamente da nossa singularidade. Viver como a maioria torna-nos agitados, perturbados, impotentes para pensar e agir. Não há algo mais nocivo do que viver em um ambiente errado. Em vez de utilizarmos as nossas forças para coisas muito mais nobres, utilizamo- as para afastar de nós o que nos corrompe, tentamos encontrar atalhos, momentos de boa companhia ou momentos para ficar com nós mesmos. Mas o dever social nos chama, o telefone não para de tocar, os compromissos são inadiáveis e, mais uma vez, o que nos daria a chance de começar a entender o processo da nossa diferenciação é adiado mais uma vez. Não há dúvida de que, assim, a vida transforma-se, cada vez mais, em um grande tédio.

Comentários

Marta Rezende disse…
Eu aqui outra vez. Será que vou virar um carrapto do seu blog? Deus me livre de ser um sanguessuga. Mas sempre que der vou dar umas voltinhas e uns petelecos por aqui.
Gosto tb da solidão, vivo muito nela. E gosto tb da dualidão. Ô se gosto. E por isso mesmo adoro amontoado de gente anônima. Ás vezes pego ônibus só pra me sentir parte da multidão. O chato mesmo é vidinha social, aquelas conversinhas, aquele troço repetido, sem futuro, sem presente.