Erudição

Os criadores não estão preocupados em “saber” mais que alguém. Sem fazer rodeios, eles fazem uso da erudição como meio para invenções: “O que isso serve para a minha obra?”, assim perguntam eles. Conservam o olhar estrangeiro, veem as coisas de outro jeito, dão valor às coisas que a maioria despreza, possuem uma inteligência que não tem nada a ver com a prática – uma inteligência do seu próprio tempo para amadurecerem ideias, atos, metamorfoses. Afirmam os sentidos do corpo, desejam o maior contato possível com obras que alimentam o seu instinto criador, porque sabem que o conhecimento não está pronto para ser acessado, mas está associado à música, à literatura, ao mar, às montanhas, às conversas. Os criadores têm a consciência de que a natureza é, também em nós, um continuum intensivo – eis o conhecimento que está inseparável de uma emoção que exprime aquilo que não morre, de um supremo pensamento que está acompanhado de uma raríssima alegria e de uma perfeita confiança em si mesmo. Trata-se de um acontecimento que não faz barulho, que acontece nos lugares mais improváveis, que ninguém ao redor tem a menor noção da louca ideia que acabou de brotar ali: sem ingerir algum alucinógeno, os criadores podem alucinar até durante uma simples caminhada... Há uma verdade maravilhosa nesse pensamento, que a razão nem chega perto. Toda erudição de todos os tempos é incapaz de dar conta da experiência que faz com que o criador encare a existência como uma criança que brinca em um jardim.

Comentários

kiko disse…
Amigo Amauri, meu comentário é só mais um modo de levar as idéias para outras passeios...:

"Não temos que entrar em fila nem pegar bilhete para ser agraciados pela Alegria. Ela nos acontece quase sempre pelas costas,zum! pá! e pronto, algo se passou. Existe memória para as sensações? Há História e Progresso e Ordem para aqueles que cultivam seu próprio Corpo Vibrátil? Meu corpo e minha alma NÃO são rentáveis, NÃO compro NÃO vendo NÃO troco. Só roubo, ou então sou roubado. NO PROBLEM!, pois não sou o proprietário de mim mesmo, apenas empresto-me corajosamente ao pulso da vida e ela assim salta em mim. E me faz passar. Mudar. Gosto de ir e estar onde não se espera, onde se fabricam as perguntas, onde surgem os sentidos, onde o eu se bifurca em MIM e no OUTRO, onde o comum por fim brilha como num fogo eterno!

Gosto de pensar que ela, a alegria, é também uma prática... (risos)