Privatização

O consumo de representações de modo acelerado, algo característico nos nossos dias, aparece através do amor (e também do ódio) pela identidade sexual e racial, assim como o fanatismo pelo time de futebol, o patriotismo e, também, pela necessidade de “vestir a camisa da empresa”. O perigo disso tudo, longe de ser ignorado por nós, é que a vida aprisionada nessas representações faz despertar o fascista-em-nós, fenômeno que se torna explícito em situações que envolvem uma séria ameaça à manutenção de determinados privilégios pessoais. “Brancos vs. Negros”, “Sulistas vs. Nordestinos”, “Homem vs. Mulher”, “Rico vs. Pobre”, são apenas alguns exemplos da reação ressentida ao orgulho ferido. Sente-se ferido por ter sido atacado naquilo que, essencialmente, não se é: uma identidade qualquer. O homem privatizado, bem instruído, bem informado, faz do conforto dos espaços que lhe são familiares uma espécie de defesa contra os fluxos nada familiares que ameaçam o seu orgulho, o seu culto à personalidade, o seu cargo na empresa, o seu papel na família. Reduzida a essa fotografia do desejo que apenas conhece objetos que lhe faltam e fins a serem alcançados, a sociedade se vê obrigada a reprimir os “desejos selvagens e fascistas” como meio para “domesticar” e “civilizar” o homem, tornando-o “apto na sociedade” (Elisabeth Roudinesco, por exemplo, reforça essa tese do senso comum ao dizer: “Muitas pessoas são inconscientemente racistas e antissemitas. Quando não há lei, esses sentimentos se exprimem”). Mas a sociedade ainda não compreendeu que é o desejo aprisionado, refém da representação, que se manifesta de modo reacionário. O processo desejante é essencialmente criador, doador, não se confunde jamais com a falta, estabelece relações de amor e de amizade entre os homens, ou seja, o desejo é necessariamente social, coletivo, conecta diferenças reais, é irredutível à representação. Mas isso tudo é violentado quando se imagina que o desejo pertence a um sujeito envaidecido que diz: “Meu desejo!”. Tal desejo do homem privatizado caracteriza-se por ele querer tudo o que limita-se ao seu umbigo, e por isso alia-se aos que prometem conservar o seu mundinho próprio, dando as costas para os problemas sociais e ambientais mais urgentes. Com efeito, ele passa a ter um horror crescente pelo espaço público, odeia quem não pensa como ele, quem não age como ele, quem não trabalha a favor dele. O gosto pelo poder vem daí, desses seres sisudos, tristes, impotentes, incuráveis enquanto estão dependentes das imagens que constituem a artificialidade da sua existência. A corrupção de uma sociedade não está dissociada de uma artificialidade das relações humanas que constituem os espaços privatizados: os condomínios e as casas vigiadas, os automóveis blindados e os shopping centers são apenas alguns ícones desse pavor ao estranho, ao novo, ao imprevisível. A necessidade de enclausuramento não resolve nada, apenas adia o desinvestimento nos modelos.

Comentários

Joaos disse…
Olá, tenho acompanhado o teu blog e acho muito interessantes teus posts. Essa colocação sobre relação entre deejos embrutecidos (isto é, protofascistas, como os da "classe média") e repressão é muito interessante.

Aproveito para divulgar o meu blog
http://esferahumana.blogspot.com/ que trata de alguns assuntos que o teu blog tb trata.