Revolução

Reinventar-se para não ser prisioneiro do poder; desejar a vida revolucionária e não a revolução que se confunde com a posse do poder. Percebemos que a vida revolucionária não passa através dos gestos pitorescos e discursos supostamente “imoralistas”. O revolucionário não vive em função do aplauso, não quer confetes ou holofotes. A reinvenção contínua de si é a sua arma silenciosa que pode alterar a percepção de uma sociedade sobre a noção de revolução: compreende-se a revolução quando se vive de modo revolucionário e não quando se faz um projeto para que ela ocorra. Uma sociedade conduzida por uma contínua reinvenção promovida por esses seres que não cessam de reinventarem-se, que são usinas de ideias, que transbordam afetos de amor ao mundo, se torna profundamente artística – e por isso pode festejar seu crescimento em força, em autonomia, em alegria. É o contrário de uma sociedade constituída pelo medo da reinvenção – atualmente, muitos dos seus artistas, por exemplo, são apenas sombras dessa revolução. Basta observá-los com cuidado para constatarmos que a “revolução” que eles dizem não consegue escapar do império da representação, de uma imagem que fazem do caos. Portanto, ora a liberdade aparece confundida com a transgressão às leis, ora aparece confundida com a exigência do reconhecimento pelo Estado dos direitos dos que são “diferentes” do padrão social – eles ainda falam excessivamente de uma perspectiva da existência limitada à noção de humano (o caos humanizado é um desses sintomas). Mas se o revolucionário não leva a sério os direitos humanos é porque ele já cria os seus próprios direitos. Esses direitos criados não são, de nenhum modo, humanos – eles são direitos da vida que escapa das tentativas humanas de repressão. E aquilo que escapa não é problema dele, é problema da sociedade; agora, ela vai ter que se mexer: ou seus indivíduos se reinventam para evoluírem, ou então, resta tentar reprimir, inutilmente, as palavras, os pensamentos, os gestos, isto é, os signos que expressam uma potência inesgotável de reinvenção do mundo – o revolucionário se alia a isto e não a um entediante ideal de revolução... O ideal assassina a reinvenção... Reinvenção de si mesmo: por viver em função disto, o revolucionário se mantém jovem, curioso como criança. Luta com tudo que pode para não perder a inocência que o leva a poetar. Sua poesia é vivida e não uma verborragia ou jogo de palavras.

Comentários

Denise Viana disse…
Caro Amauri,
Suas palavras penetram a carne, vem voraz mas sem sermão, inquieta, mas também conforta... (ao menos, à mim...) rs

Sempre é um encanto ler-te!

Abraço! =]
Fernando disse…
Tu é foda - sem mais
Dylan Araujo disse…
Muito bacana a reflexão.

Sobre o trecho "O ideal assassina a reinvenção", prefiro dizer que a reinvenção busca o ideal e não um ideal.

Nesse caso, usaria "Um ideal (de revolução) assassina a reinvenção"

Abraço,
Caro Amauri, li o seu texto e o senti nas entranhas: potente, criativo e afetuoso.
Uma versão esquizoanalista, para mim, do ideário surrealista: transformar o mundo, mudar a vida...
E me rrecordou, com carinho e emoção, uma fala de Dona Hbe de Bonafini, das Mães da Praça de Maio:
- Revolução se faz, fazendo... revolução se faz, partilhando... e Revolução se faz, dando-se...
Abraços com ternura.
Jorge bichuetti
www.jorgebichuetti.blogspot.com