Repressão

No mundo contemporâneo, o desejo contínuo por repressão manifesta-se pelo modo vulgar de ouvir música, de ler um livro, de ver um filme, de ouvir uma aula – modos nada revolucionários de fruir obras que foram generosamente doadas para nós. O domínio de um tempo imaginário que organiza a sociedade, isto é, a organização através da incerteza que caracteriza um tempo futuro, gera angústia, desconfiança na vida e a consequente necessidade de maior repressão. Aprendemos a experimentar não por meio de uma projeção do que irá acontecer no tempo imaginário, mas somente aprendemos a experimentar... experimentando, sem deixar a nossa consciência atrapalhar. É agindo, caindo, rindo, dançando, tal como uma criança que não deixa a especulação consciente assassinar a sua experiência com o corpo e com o tempo. Redimimos o tempo quando tornamo-nos produtivos, quando fazemos o que queremos, o que amamos, sem termos necessidade de lutar contra o tempo do relógio. A repressão que um povo sofre – e que, no seu limite, faz explodir o ódio ao seu repressor – não é, de modo algum, exclusividade do Estado despótico. No Estado democrático a repressão também existe. O tempo da criação e da felicidade é reprimido pela imposição do relógio, pela imposição da normalidade, pela imposição da inclusão, pela imposição da diversão, pela imposição do consumo, pela imposição da informação. Mas a obra de arte nos redime do domínio do tempo artificial e nos permite mergulhar numa intensificação da vida em nós. Por isso qualquer poder odeia a arte, e a sua massificação é uma tentativa de diminui-la, de torná-la inofensiva, de reprimi-la. A filosofia também é reprimida quando o pensamento, dentro da academia, torna-se inofensivo – em geral, o filósofo acadêmico, em troca de salário (e também em razão da sua vaidade), resigna-se com uma vida de burocrata e reprodutor do saber oficial. A repressão da democracia liberal é sutil e, assim como ocorre na sociedade despótica, também é perigosa, também é desejada, mas de um modo que lhe dá um sucesso singular: como não existe o tirano, ela impede que o objeto de ódio tenha um rosto, que seja identificado. “O” repressor, de fato, não existe. O que existe são indivíduos que querem reprimir, que são educados para a repressão, que recebem recompensas por reprimir. Mas o que também existe é a repressão que estes mesmos indivíduos sofrem por meio de outros que, no fundo, também são reprimidos, e assim segue um sistema de repressores-reprimidos... É inevitável que os que aceitam este jogo perverso mantenham o sucesso da democracia liberal – eles lutam pela sua própria repressão porque dependem da preservação deste sistema.

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