Ignorância

Acreditar que um cérebro, ou um órgão qualquer, estão separados das relações com o mundo, traz consequências fundamentais para a construção de uma cidade. Alguém é adoecido por viver num meio violento: vemos, por exemplo, uma criança aprisionada quando habita um espaço constrangedor que reduz sua locomoção, que impede a experimentação com o seu corpo, convivendo com adultos já adoecidos socialmente. Será difícil imaginar o que uma criança assim pode se tornar? O que chamam estupidamente de “mente criminosa” não seria apenas o produto de uma cidade que violenta continuamente a vida? Pois é essa violência que gera a outra, esta última apenas como efeito da primeira, inegavelmente mais grave e que não é percebida pelos homens, pois até os mais instruídos entre eles continuam a gritar pela lei para se protegerem dos “maus” indivíduos. Muitos médicos, psicólogos, professores, arquitetos e outros tantos diversos especialistas continuam a ignorar as relações do nosso corpo com o ambiente que vivemos – certamente eles trabalhariam a favor da vida se, ao invés de se limitarem à instrução, conquistassem o pensamento. A organização de uma cidade é o resultado da ignorância ou do conhecimento de seus habitantes – e o mesmo podemos dizer com relação aos seus governantes. Toda mudança radical é absolutamente necessária para o futuro de um povo que está enfraquecido – por isso que para uma cidade ser construída a favor da vida implica a urgência de educar os homens para o pensamento, libertando-se de um governo que somente faz proliferar ainda mais a ignorância, onde os homens preferem julgar em vez de pensar cada manifestação da vida como produto das relações... A violência é filha da ignorância.

Comentários

Denise Viana disse…
Sim! Nas relações! Lembrando de Valter Rodrigues aqui.. "No entre" ele diria...
Parabéns pelo texto Amauri! Feliz, como um bom encontro de corpos que se relacionam sem constrangimento ou ignorância.

Abçs!