Introspecção

Quem pode ver a obra em processo, por introspecção, é somente o autor. Fora isso, o mundo não pode vê-la em seu processo – quando a vê, vê mal, quando geralmente percebe apenas o que, na obra, permite que algo possa ser associado a alguma coisa já existente e familiar. Mas o mundo também não vê o autor, não pode sequer suspeitar da sua existência – ele é estranho demais para os códigos vigentes. Ver o autor seria identificá-lo, vulgarizá-lo, o que poderia bloquear a obra em processo. Mas se o mundo não pode ver o autor é porque, de fato, o autor, como agente causal, não existe: ele é apenas um meio de transmissão de afetos, de pensamentos, de desejos. Chamamos de introspecção esta consciência de si como meio de passagem para potências inesgotáveis do eterno que é a vida. Escrever por introspecção, falar por introspecção, viver por introspecção, faz brotar alguma realidade muito original de nós – realidade que não quer dizer nada, mas quer apenas... brotar e seguir, brotar e seguir, brotar e seguir... O homem mal começou a pensar, é ainda um iniciante na arte de pensar, ainda não está maduro para ter uma consciência que é, ao mesmo tempo, modesta e rica, que torna o pensador imperceptível no mundo das identidades que fazem dos homens objetos de consumo. A introspecção leva o autor a perceber a sua própria obra em processo, no que ela está se tornando, assim também no que ele está se tornando... Uma parte dela, certamente, já existe, já está salva, porém, ele é imperceptível o suficiente para não ser enganado por sua obra realizada (a vaidade como sintoma de envenenamento), tampouco é incomodado pelas distrações que o fariam desviar dessa dupla produção, que inevitavelmente caminham juntas: a produção da obra e a produção de si... Isto não deve parar.

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