Obrar

Realizar uma obra não é algo que nasce espontaneamente da consciência, tampouco obedece algum projeto finalista. Dedicar uma parte do dia, ou uma parte da semana, para se afetar por diversos tipos de sons e imagens, leituras de textos, inclusive observações de miudezas, fazem parte da grande tarefa de obrar. Por isso é fundamental saber o quê se escuta, o quê se lê, por onde se caminha, pois quando as manifestações artísticas servem para o entorpecimento, certamente não atendem à sublime tarefa de obrar. Não podemos nos sentir obrigados a conhecer os grandes filmes ou as grandes obras literárias de todos os tempos como condição para engendrar as nossas próprias obras. O excesso de filmes, músicas ou livros pode, ao contrário, obstruir essa tarefa. E ao dizermos isso não queremos, de modo algum, negar que a erudição possa estar a serviço da tarefa de obrar, mas queremos apenas observar a importância da distinção, que muitas vezes não é nítida, entre a distração de si pela erudição e o seu uso produtivo. Um rígido, frio e estéril profissionalismo acadêmico, por exemplo, está muito distante da irresponsabilidade inerente ao amadorismo que expulsa certas obrigações entediantes. E o amadorismo, aqui, não indica indolência, mas uma entrega àquilo que se faz por amor, através de uma indispensável mistura de autodisciplina, rigor, agressividade, estética, versatilidade, além da  paciência necessária para organizar as ideias que surgem inesperadas e que, muitas delas, nos escapam sem a ínfima possibilidade de retornarem do mesmo modo que surgiram em nossa consciência. Por isso, exige-se um cuidado peculiar com a organização dos signos: os erros que surgem nos indicam, sempre afetivamente, que tal organização não é a melhor para tentar exprimir as nossas ideias. Então, apaga-se parte do que foi feito ou joga-se tudo fora mesmo, sem se apegar a nada, e coloca-se novamente no árduo e paciente processo de permitir que as ideias que nascem em nós sejam organizadas por meio dos signos, como trabalho indispensável para inventar um ritmo que permita que ele mesmo, o autor, sinta a confiança necessária para expor a sua obra ao mundo. Afinal de contas, não sentimos nenhuma vergonha por expressar nossas ideias quando nos conhecemos por meio da introspecção... E, com isso, nos alegramos por sermos generosos... Algo feito, materializado, nos dá ainda mais confiança na vida, na sua absoluta potência de obrar também através de nós.

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