Insatisfação

Se o Estado Democrático de Direito pode ser considerado insatisfatório é porque antes dele estão os afetos, ou seja, as “regras do jogo” não vêm antes dos afetos, pois são eles que as fazem – e são eles que também, sem dúvida, alteram as regras. Direitos são criados, mas direitos também são revogados, pois tudo depende do conflito de forças do campo social (basta lembrarmos que o próprio Estado Democrático de Direito surgiu por meio do domínio de forças burguesas). Podemos dizer que, em um determinado campo social (tomamos o Brasil atual como exemplo), existem os que querem lucros cada vez mais exorbitantes, como os empresários graúdos e os banqueiros (em nível mundial, o resultado assustador disso pode ser observado segundo um estudo recente: hoje em dia, a riqueza acumulada por 1% da população mundial equivale à riqueza de 99% do restante da população mundial). Há também os que anseiam em obter componentes altamente luxuosos, de sentirem-se como very important person: é evidente que estes têm medo de não mais possuir os direitos aos privilégios que lhes autorizam a se imaginarem superiores diante dos que não tem acesso ao alto luxo... Podemos também afirmar que existem os que anseiam por pequenos luxos que lhes dão o privilégio de sentirem-se superiores aos outros em razão da ascensão social (emprego com maior salário numa multinacional, apartamento muito mais confortável, viagens turísticas): estes sentem que também possuem o direito de serem consumistas, de ingerir novelas e noticiários numa televisão moderna, de circularem orgulhosamente com roupas de grife e automóveis caros, de exibirem seus corpos de acordo com o “padrão de beleza” atual. Há, enfim, os que querem condições dignas para morar, estudar, trabalhar, deslocar-se pela cidade e, dentre estes, muitos sonham com os pequenos luxos... Destacamos apenas algumas forças sociais que exigem do Estado Democrático de Direito o auxílio necessário para que as “regras do jogo” lhes favoreçam (poderíamos acrescentar os políticos corruptos, os pastores que enriquecem com o sofrimento alheio, porém, de certo modo, estas forças se relacionam com algumas acima). Mas como o Estado serve, de modo dominante, aos interesses dos banqueiros e empresários graúdos, os conflitos sociais, dos mais diversos tipos, são absolutamente inevitáveis. Se no fascismo quem pensa diferente é torturado, expulso, exterminado, na democracia quem pensa diferente é, muitas vezes, incluído, tornado domesticado, dócil, inofensivo – a demagogia democrática que pretente incluir para excluir a vida que é singular e fragmentária torna evidente, ao menos para nós, a sua natureza totalitária, mas com diferença de grau com relação ao fascismo, sem dúvida, pois este não tem como esconder o seu anseio unificador, ao contrário da democracia... Ora, pelo fato do campo social ser tecido por uma multiplicidade de forças ou de tendências afetivas que estão sempre em mutação, o Estado Democrático de Direito, conforme convém às forças que o dominam, exclui, elimina (muitas vezes fisicamente, por via da violência policial) os indivíduos que são um entrave ao ideal de “plena satisfação” das forças sociais dominantes, como os pobres, travestis, negros, índios – estes últimos são, por exemplo, exterminados com a complacência do Estado brasileiro, ou então, são “excluídos pela inclusão”, como ocorre atualmente com a tribo Pirahã, que passou a ter, democraticamente, o acesso à televisão e à alfabetização (outro exemplo atual de massacre do povo indígena é a construção da Usina de Belo Monte). Portanto, o cenário é de insatisfação geral, pois, ao que parece, ninguém consegue obter, de modo completo, aquilo que se espera do Estado – insatisfação dos banqueiros, dos famous people, dos pobres, dos índios, dos negros... Mas porque não usarmos a insatisfação com o Estado para, finalmente, revermos nossos valores? Será que não é possível a multiplicação de ações políticas que vão na contramão da lógica do mercado capitalista? Para falar claramente, sem rodeios: muito mais do que apenas revermos valores, podemos dar um passo adiante para criarmos valores, o que significa uma nova relação com a política, com a economia e, sobretudo, com a existência que ganhamos. A insatisfação é o combustível para a exigência de uma maior repressão do Estado com o fim de garantir certos direitos do homem privatizado, mas ela também pode ser um combustível para resistirmos à sua violência inerente. A insatisfação com a ignorância humana, por exemplo, pode nos levar à necessidade de uma educação para o pensamento (algo que é muito diferente da insatisfação pela redução de certos privilégios consumistas), ou então, a insatisfação com a educação que está sob a tutela de um Estado que a trata como negócio lucrativo pode provocar ações políticas dos estudantes (as recentes ocupações nas escolas brasileiras pelos estudantes secundaristas como signo de democracia ativa). De algum modo é importante destacar que as lutas sociais que ocorrem em um Estado democrático (apesar de todas as suas aparentes contradições), podem se servir da preservação de direitos para seguirem adiante, para que surjam, quiçá, novos valores. É em razão disso que já dissemos em outro lugar: “criar e não ser incluído”, desde que se compreenda que a inclusão social que ocorreu nos últimos anos no Brasil pode ser, estrategicamente, utilizada como uma espécie de trampolim para que surjam novos modos de existência que são contrários aos fins do Estado e da lógica do mercado que o domina... Enfim, se fosse possível obtermos a satisfação, certamente haveria um bloqueio geral, viveríamos num paraíso insuportável. A satisfação é apenas um ideal de quem não age. Ora, se os afetos são anteriores às “regras do jogo”, tudo se decide aqui: os afetos de vontade excessiva, tristeza, ódio e ressentimento, alimentam o anseio totalitário (incluindo o ideal democrático); por outro lado, os afetos de desejo de sermos atraídos nos levam aos encontros com os micromundos, onde celebramos a fragmentação. Por isso, dispensamos o “salvador da pátria”, porque o importante é percebermos as tendências afetivas do campo social que estão diante de nós para experimentarmos a ressonância. Entretanto, as condições para isso podem fazer tremer as pernas de muita gente que está habituada a exigir que algum salvador resolva os seus problemas, que alguém possa fornecer a “poção mágica” para as suas perturbações. Contrariamente a essa postura vitimizada, é preciso se tornar um espírito guerreiro, que não luta de qualquer jeito, mas com simplicidade e sagacidade – como arte da guerra.

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