Técnica

É um erro imaginar que a ausência de obstáculos seja um objetivo a ser alcançado por qualquer um que tenha conhecimento técnico sobre alguma coisa. As dificuldades que continuam a se apresentar para nós servem para mobilizar a nossa inteligência a superá-las, mas com muita paciência e autodisciplina, seja para a fabricação de instrumentos, seja para o exercício de atividades diversas – inclusive artísticas, já que o “saber fazer melhor” não surge de um dia para o outro, é preciso reservar muito tempo aos estudos, e é justamente por isso que alguma coisa honesta pode demorar anos para vir ao mundo. Graças aos obstáculos que surgem, somos coagidos a ir além daquilo que já sabemos, sem nos satisfazermos com o nível em que estamos. Dito de outro modo: é fundamental exigirmos cada vez mais o aprimoramento da nossa técnica a partir do sentimento de uma insatisfação produtiva consigo mesmo – ao contrário, portanto, da insatisfação infértil e ressentida que domina os que sonham com um mundo sem obstáculos, que propagam a crença de que são os outros que nunca fazem o suficiente para eles... O cuidado de si é inseparável da insatisfação produtiva, sobretudo quando nos elogiam por algo que foi feito com perícia, como se já estivéssemos “prontos”. Sem dúvida, é uma postura prudente estar ciente de que temos limites, que não podemos saber de tudo, que não podemos fazer qualquer coisa de qualquer forma, em qualquer lugar, em qualquer tempo. Este cuidado impede de nos confundirmos com quem tem necessidade de se esforçar para exibir um conhecimento técnico que, muitas vezes, não domina – o conhecimento técnico é para superar obstáculos e não para o exibicionismo que não muda nada. É importante observar que nos referimos não somente aos obstáculos que, uma vez superados, favorecem a nossa sobrevivência, mas principalmente ao maior de todos os obstáculos humanos, o nosso maior inimigo em todos os tempos, que é a disseminação da estupidez... É esta moléstia que mantém a ignorância sobre o comunismo superior, mas que, no entanto, pode ser combatida mediante um certo uso da técnica, mas com emoção. Afinal, nenhuma criação surge do nada, mas da técnica que alguém se serviu e das influências que teve – influências que foram suficientemente digeridas, transmutadas e que seguem presentes naquilo que ele faz, pois elas se expressam de forma nova através dele... 

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