Afetante

Um estímulo à nossa "vontade de explorar" pode permitir que haja uma reconfiguração das nossas tendências afetivas, obstruindo a necessidade de sentirmos os prazeres que derivam do exercício da autoridade, dos elogios, dos títulos e de outros bens materiais acumulados – o sentimento de volúpia que surge da nossa capacidade de resistência à sistematização confinante é acompanhado de uma alegria distinta daquela que surge da vaidade e, também, da que surge com a “persuasão íntima” que nos incita a ir adiante. Trata-se da resistência alegre que é sentida a partir da nossa própria reconfiguração – ela é, inclusive, fomentada por uma outra organização, que é a sistematização afetante... O ato de escrever pode ser considerado uma resistência enquanto é componente da sistematização afetante: os aforismos são organizados em um processo inacabado, onde cada releitura estimula novamente as tendências desejantes dos leitores. Realizar uma aula é também um ato de resistência quando a repetição temática, em vez de operar um fechamento naquilo que já sabemos e nos entediar, cria aberturas para outras conexões desejantes: sentimos necessidade de ir além do que sabemos e, por isso, queremos conectar o que já sabemos com o que ainda não conhecemos – … – para falar de modo mais preciso, queremos conectar com o que ainda não vivemos... A sistematização afetante decorre das nossas próprias tendências desejantes, nos conectando à temerosa "selva" que os sujeitos submissos à organização dominante não querem nem ouvir falar. Finalmente, o macromundo não está mais envenenado... Para estimular os nossos desejos reprimidos é indispensável uma experiência de tempo que nos desorganiza, pois é lá, no tempo, que existe fluidez, composição, contemplação, ressonâncias efetuadas com novos microamigos, microlivros, microcanções, microaulas, micromovimentos sociais. Enquanto "a luta na selva" é mantida por intermédio das conexões desejantes que são facilitadas pela sistematização afetante, não há necessidade alguma de retornarmos ao cativeiro, porque a reconfiguração afetiva nos insere num prazeroso e alegre processo que faz realmente sentirmos que estamos vivos, no qual, inclusive, a democracia se torna ativa, sem salvadores da pátria e juízes "caçadores de corruptos". Parece-nos possível apontar, aqui, a existência de ações reconfigurantes realizadas por uma certa extrema-esquerda que não reproduz o modelo-Estado, já que ela efetua o despoder: embora haja variedade nas táticas que visam combater, segundo o seu discurso, “a injustiça, a desigualdade e a opressão do capital”, muitas de suas ações nada seriam se não fossem acompanhadas da volúpia que é sentida por serem capazes de resistir, até mesmo num "breve período de tempo" (apenas para falar de modo usual), ao sistema dominante que pretende enfraquecer a todos. É por isso que as ações do tipo Black Bloc não possuem nada de “vandalismo gratuito” – é preciso compreendê-las a partir da reconfiguração das tendências voluptuosas e das conexões de desejo que, mesmo sendo fugazes, podem proporcionar aos seus integrantes um sentimento de que não estão mortos ou resignados, contrariamente aos que apenas sobrevivem nos cativeiros. É evidente que não se trata de romantizar tais ações, mas apenas de sublinhar a sua importância política a partir da tentativa da compreensão de fenômenos sociais extremamente complexos, procurando destacar suas diferenças de grau segundo uma perspectiva que está aquém do “certo” e do “errado”, pois, conforme já dissemos, nada está separado das múltiplas tendências afetivas... É por causa disso que as reconfigurações que experimentamos nunca estarão garantidas, pois elas poderão sofrer outras configurações operadas pelo sistema dominante. Isso ocorre quando as nossas conexões desejantes não são mais estimuladas, a organização começa a nos sufocar, sua burocracia crescente passa a roubar o nosso tempo, bloqueando a fluidez dos desejos, o tédio nos assola e, fragilizados, podemos ser facilmente cooptados pelas seduções do poder. Já não temos mais prazer em escrever, há meses, ou anos, nenhum texto decente vem à luz; realizar uma aula torna-se um fardo, quase um automatismo puro; subir ao palco torna-se um imenso sacrifício; não há mais volúpia ao ouvir os estilhaços da vidraça de um símbolo do poder capitalista, nem em "fazer os muros falarem" contra a opressão aos mais desfavorecidos. Será que a aventura na selva chegou ao fim? Não seria melhor retornar ao cativeiro?... Certamente, a luta na selva deve sempre continuar, mas agora renovada com outras táticas, porque simplesmente mudamos, não precisamos acreditar que somos os mesmos a cada instante que passa. Éramos verdadeiros ontem, somos verdadeiros hoje, queremos continuar a ser verdadeiros amanhã... Talvez possamos sentir a urgência de darmos um outro passo além da reconfiguração, sem dúvida o maior e mais difícil de todos: a transfiguração.

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