Confinante

Enquanto prolongamos a configuração imperiosa das nossas tendências voluptuosas, continuamos a impedir o surgimento das reconfigurações e transfigurações operadas pelas tendências desejantes. Por efeito, nos resignamos com a nossa atual condição existencial, com o constante temor de ser desfeita a organização que nos mantêm submissos ao Estado – se somos enganados pelo Estado é porque, antes, não conhecemos outra ordem que não seja a da frequente repressão dos nossos desejos e impulsos... Mas, afinal, o que é o Estado? Nada mais do que um produto da nossa demasiada configuração voluptuosa, sendo o lugar por excelência dos que não conhecem a existência além do cativeiro, dos que estão sedentos pelo poder em cada organização-quadrilha, dos que têm, enfim, pavor da reconfiguração – é inevitável que o Estado continue a existir para os que não se desorganizam e não se reconfiguram. Apesar de as múltiplas tendências que nos constituem não serem jamais eliminadas (pois o processo de organização-desorganização-criação não tem fim), ainda assim queremos nos convencer de que a organização que nos reprime é a melhor que podemos ter, e por isso devemos nos sacrificar pela manutenção da “ordem” (como já dissemos em outro lugar, é importante questionarmos o que se entende por “ordem”...). Sendo assim, a extrema-direita é signo da necessidade de nos adaptarmos ao confinamento que é considerado o mais eficiente de todos: ele é o lugar onde nos entediamos porque acreditamos na previsibilidade do ambiente artificial em que estamos – mas é também o lugar onde obtemos os engodos que nos consolam; é onde, ainda, nos protegemos dos “seres inferiores” que ameaçam a ordem que dependemos para sobreviver; é onde, enfim, nos protegemos “da selva que é a vida”, que está sempre muito próxima de nós. Mas como o status quo não permite que os chamados “seres inferiores” tenham acesso aos bens que também poderiam momentaneamente satisfazê-los (como a vontade é impertinente!), surgem ações políticas que não alteram radicalmente a organização vigente: Lula bon vivant, a esquerda tutelar e reformista em pessoa... Chamamos de sistematização confinante a organização que decorre da prolongada configuração das nossas tendências voluptuosas, conservando, a todo custo, a configuração que nos mantém carentes de tudo. Adoecidos mentalmente, o que nos interessa é não apenas o consumismo e a ascensão social, mas também o progresso e o desenvolvimento econômico do país, seja por intermédio da inclusão democrática dos que estão à margem dos sagrados valores da nossa civilização (pois somente assim eles poderão ter as oportunidades que irão “salvá-los”, deixando de nos perturbar com seus modos estranhos de viver), seja pela violência explícita que deseja exterminar os que não se submetem à imperiosa organização – tudo isso corroborado pela linguagem do poder e suas “verdades” que pretendem confinar qualquer um de uma vez por todas. A realidade passa a ser limitada a esses valores, onde todos nós devemos, de algum modo, reproduzi-los mediante uma captura da nossa sensibilidade, do nosso tempo e do nosso pensamento. O temor de uma outra organização, que decorre de uma reconfiguração das tendências, é acompanhado da crença de que somos os mesmos a cada instante – e assim seguimos fugindo da selva, que é o lugar por excelência do novo, do desconhecido, do risco... 

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